Ele é maquinista há muito tempo e desde criança sabia que o ia ser. Seu avô, que vivia lá nas bandas de Paraopeba, era maquinista. Seu pai também o era e ele cresceu em meio ao barulho e ao cheiro das máquinas. Quando o transporte ferroviário quase desapareceu em Minas seu peito ardeu. A modernidade chegou, JK abriu as estradas, todos compraram carros e o trem passou a ser patrimônio histórico e linguístico dos mineiros. Só que não acharam jeito melhor de transportar o minério pro porto, pra mandar pro exterior. A solução era manter a linha Vitória-Minas, mesmo que a linha passasse na zona urbana.
Respirou aliviado e manteve seu emprego.
Este outro nunca soube ao certo o que ia ser da vida. Não teve amor de mãe, nem de pai. Foi encontrá-lo nos bordéis de Caeté e na cachaça. Quando era criança gostava do barulho do trem. Gostava também de imaginar pra onde o trem ia. Queria ser o trem. Queria sentir o cheiro que o trem sentia, o vento que batia, as pessoas que via, os lugares que ia... Como não conseguiu, decidiu deixar o trem matá-lo pra, quem sabe, se tornar parte dele.
Os dois nunca haviam se encontrado. Naquele dia, os dois tomaram seu café, fizeram a barba e trocaram a roupa. O primeiro fez o sinal do Pai-nosso como sempre fazia; o segundo brigou com nosso Pai e decidiu nunca mais reatar.
Já era tarde, final da noite. Não havia ninguém na rua e todos os barulhos eram familiares. O primeiro deu início aos procedimentos pra quando o trem passa em zona urbana. Acendeu os faróis altos e deu o aviso sonoro. Uma grande buzina encheu o barulho daquele lugar.
Foi quando se encontrou com o segundo. Na terceira curva da fase crítica, estava lá o homem deitado, decidido a tirar a própria vida. "-Mianossinhora!", foi a única coisa que deu tempo de falar. Tentou com toda força parar o trem, mas sabia que já era tarde. Até onde viu, o homem não havia se movido. Seu coração veio na boca, boca que tremia de pavor. Pediu perdão a Deus, rezou pela alma do homem e ouviu várias pessoas dizendo que a culpa não era sua, afinal, "foi o trem que matou o homi".
O trem. O trem que já foi sinônimo de reencontros, abraços e sorrisos. O trem que é novo começo, saudade e despedidas. O trem agora tá sendo acusado de assassinato. E é réu do assassinato de um homem desamado, mas que amava tanto o trem que queria ser parte dele.
Veredicto: crime passional.
Respirou aliviado e manteve seu emprego.
Este outro nunca soube ao certo o que ia ser da vida. Não teve amor de mãe, nem de pai. Foi encontrá-lo nos bordéis de Caeté e na cachaça. Quando era criança gostava do barulho do trem. Gostava também de imaginar pra onde o trem ia. Queria ser o trem. Queria sentir o cheiro que o trem sentia, o vento que batia, as pessoas que via, os lugares que ia... Como não conseguiu, decidiu deixar o trem matá-lo pra, quem sabe, se tornar parte dele.
Os dois nunca haviam se encontrado. Naquele dia, os dois tomaram seu café, fizeram a barba e trocaram a roupa. O primeiro fez o sinal do Pai-nosso como sempre fazia; o segundo brigou com nosso Pai e decidiu nunca mais reatar.
Já era tarde, final da noite. Não havia ninguém na rua e todos os barulhos eram familiares. O primeiro deu início aos procedimentos pra quando o trem passa em zona urbana. Acendeu os faróis altos e deu o aviso sonoro. Uma grande buzina encheu o barulho daquele lugar.
Foi quando se encontrou com o segundo. Na terceira curva da fase crítica, estava lá o homem deitado, decidido a tirar a própria vida. "-Mianossinhora!", foi a única coisa que deu tempo de falar. Tentou com toda força parar o trem, mas sabia que já era tarde. Até onde viu, o homem não havia se movido. Seu coração veio na boca, boca que tremia de pavor. Pediu perdão a Deus, rezou pela alma do homem e ouviu várias pessoas dizendo que a culpa não era sua, afinal, "foi o trem que matou o homi".
O trem. O trem que já foi sinônimo de reencontros, abraços e sorrisos. O trem que é novo começo, saudade e despedidas. O trem agora tá sendo acusado de assassinato. E é réu do assassinato de um homem desamado, mas que amava tanto o trem que queria ser parte dele.
Veredicto: crime passional.

António, fico feliz por ter gostado dos textos e agradeço muito!
ResponderExcluirE amém! Desejo-lhe tudo em dobro!
Seguirei seu blog sim.
Um grande abraço!