O
dia nem pensou em clarear, mas Adélia já está de pé, coando o café e preparando
a marmita. Prepara a bolsa térmica que ganhou no sorteio da igreja com cuidado
e carinho. Separa um pedaço da broa de ontem e embrulha num pano de prato
bordado. O cheirinho do café acorda sua netinha, que já sabe que é dia de
passeio. “-Ainda não, meu amor”, ela diz pra menina de olhar ansioso, que
aguarda há dias pela viagem.
Logo
chega a hora e as duas saem de casa. Dona Adélia coloca uma blusa na menina por
causa do frio da madrugada e carrega as pesadas sacolas. De um lado, a bolsa
térmica, do outro, a bolsa de documentos e exames.
Quando
chegam à porta da prefeitura, encontra amigas que fez num daqueles passeios.
Elas também estão animadas com as boas notícias dos últimos dias. Conseguir
vaga na van era tarefa difícil nos últimos tempos e as viagens vinham se tornando
cada vez mais escassas, por isso todas pareciam felizes por finalmente
conseguirem embarcar.
“Todos
prontos?”, pergunta o motorista, já colocando o cinto. Como ninguém apresenta
oposição, ele liga o carro e segue viagem. Dona Adélia nota que seu banco está
um pouco solto, mas pelo menos não tem nenhum barulho estranho dessa vez.
São
4 horas de viagem até Belo Horizonte, sem paradas, para economizar tempo e
dinheiro. Dona Adélia vê sua pequena cidade ficando longe e sente uma mistura
de alívio e medo, como em todas as vezes que entra naquela van. A netinha também olha desperta tudo que vai
passando pela janela, mas logo vem o sono e ela se aconchega no colo da avó.
Adélia não gostava de levá-la naquelas viagens, mas desde que a filha tinha se
envolvido com um tal de Jairo, a menina vivia jogada e a avó acabou lhe tomando
por filha. Achava que a menina ficaria cansada e pensava que era ruim ela
perder aula, mas a menina não parecia se importar, encarando a viagem como
diversão. Gostava de ver a capital e as luzes da cidade antes do amanhecer.
Gostava de ver os prédios altos e do picolé que o moço passava vendendo num
carrinho. Só não gostava da expressão da avó, todas as vezes que saia do
doutor. Aliás, não gostava nem um pouco do doutor. Todas as vezes que a avó ia
lá, saia com um olhar diferente. Era a pior parte da viagem pra menina.
Chegaram
a Belo Horizonte. Adélia e a menina olhavam para os prédios ainda sem vida, mas
onde já era possível ver algumas luzes. “O que toda essa gente faz, vó?”,
pergunta a menina intrigada. “Um monte de coisa, minha filha, só que coisa de
cidade grande”, responde Adélia. Ela não sabe exatamente o que são todas essas
coisas, mas imaginava que eram coisas importantes, porque sempre via as pessoas
passando com cara séria e correndo de um lado para o outro.
“-Santa
Casa!”, grita o motorista lá da frente. Adélia pega a mão da menina e as
sacolas e finalmente desce da van. Agradece a Deus por não estar chovendo,
porque o atendimento só começa às 7h.
O
dia clareia e a praça começa o movimento já conhecido por Adélia. Gente de
branco, de terno e gravata, com uniformes de empresas e estudantes passam por
ela numa velocidade tão grande que a fazia pensar se não eram os mesmos que ficavam
passando ali o dia todo. “-A gente da cidade é toda igual”, ela ouviu da
vizinha uma vez e agora podia concordar.
A
menina levanta de seu colo, com o cabelo desgrenhado e o pescoço doendo por
causa do banco duro que estavam sentadas. Adélia ajeita o cabelo dela e serve
um pedaço da broa com um pouco de café.
“-Vó,
pra onde será que esse povo todo vai?”
“-Pra
muitos lugares, minha filha, trabalhar, estudar...”.
“-
Mas por que eles correm tanto?”
“-
Não sei, meu amor. Acho que o tempo na cidade passa mais rápido”.
Elas
entram no hospital. Na porta, um senhor começa a passar mal e vomita segundos
antes de Adélia passar. Ela se pergunta se deve parar para acudi-lo, mas uma
outra moça corre desesperada para socorrê-lo: “-Ô pai, falei pro senhor ficar
quietinho!”. Adélia pega a senha do atendimento: número 12. “Essa é uma das
vantagens de chegar cedo”, comenta a moça de número 11.
Por
volta das 11h, nada de chamarem sua senha. A moça do balcão tinha explicado
mais cedo que o médico tinha ficado preso em outro andar, porque não tinha
outro pra atender “lá em cima”. A menina já havia arrumado uma coleguinha e não
parecia ligar para a demora. A coleguinha com quem ela brincava usava uma
máscara na boca e não tinha nenhum fio de cabelo. Adélia sabia o que isso
significava, mas não conseguia sentir pena, vendo aqueles olhinhos brilhantes e
corajosos esperando pacientemente sua vez. “É o lugar de gente mais corajosa
que já visitei”, foi o que disse quando voltou da cidade a primeira vez.
O
doutor finalmente a chama, bem na hora que o estômago de Adélia deu um alto
ronco. Ela nota os olhos fundos do médico e acha que ele parece mais velho
desde a última vez que o viu.
“- Dona Adélia, a senhora me desculpe, mas meu
colega não pode vir e isso me agarrou lá me cima. Como a senhora está?”, diz o
médico abrindo o prontuário.
“-
Caminhado e vencendo, doutor. O senhor que tá parecendo cansado”.
O
médico dá um sorriso e responde: “-Faz parte, dona Adélia”.
Adélia
não entende tudo o que médico diz, mas algumas partes entende bem: “a senhora
tá bem..”, “não cresceu muito...”, “precisava ficar aqui...”, “o tratamento é
melhor..”, “tem mais recursos...”, “mas a senhora tem que ver...”, “eu entendo...”,
“vê direitinho...”, “é pro bem da senhora...”.
Ela
olha para a menina e o médico olha pra ela.
“-Obrigada,
doutor. Vou ver o que faço”.
O
médico sabe o que esta resposta significa e prescreve a quimioterapia do dia,
sentindo-se impotente por ser a única coisa que pode fazer – de novo.
A
menina fica sentada com outras crianças numa sala ao lado, enquanto a avó
permanece ligada aos equipamentos da quimio. Tentaram proibir a entrada de
crianças no hospital, mas descobriram que isso seria o mesmo que impedir o
tratamento de diversas mulheres. Por fim, médicos e enfermeiras decidiram fazer
vista grossa e se alguém quisesse remover as crianças da sala de espera, que
esta pessoa mesmo encontrasse lugar melhor para elas.
Adélia
sai meio zonza da sala e sente aquele embrulho no estômago. Sente saudades de
sua doce mãe e do chá de boldo que ela preparava quando tinha dor de barriga.
Era horrível de tomar, mas ela sabia que era alívio imediato. Infelizmente, o
boldo não podia ajuda-la mais.
Ela
e a menina se sentam na praça para esperar a van, junto com outros pacientes
que haviam chegado. A menina finalmente avista o moço do picolé e Adélia retira
da bolsa uma nota de R$2,00, o único dinheiro que podia gastar durante a
viagem. Era o ponto alto para a menina! Parecia que para a neta aquilo era uma
grande aventura, que terminava de forma doce e divertida.
Uma
moça passa pela praça. Adélia pensa já tê-la visto passando por ali antes. A
moça é quem parece vê-la pela primeira vez. A moça olha para trás, fixando os
olhos na menina, sorrindo com o picolé. A moça olha de novo e torna a olhar uma
terceira vez. Adélia não sabe o que se passou na cabeça dela, mas decidiu
devolver o sorriso que ela finalmente lhe deu. Será que ela agora tinha uma
amiga na cidade?
Dona
Adélia, eu não sei se este é seu nome, nem mesmo sei se esta é sua história.
Não sei nem dizer quantas você é e nem quantas vezes te vi. Só sei que um dia,
passando na minha habitual correria, eu finalmente a vi. Você e tantos outros,
que permanecem na invisibilidade por causa das nossas “preocupações maiores”.
Vocês, que vêm para a “cidade”, exercerem seu direito à saúde, garantido
constitucionalmente e que têm esse direito devorado por gente que sequer
considera a existência de vocês. Vocês, que se amontoam na área hospitalar de
Belo Horizonte, vindos em vans com nomes de cidades que nem sabemos existir,
mas que com certeza receberam orçamento suficiente para evitar muitas dessas
viagens.
Eu
chorei por vocês. Chorei não porque vocês sejam dignos de pena. Vocês me
mostraram (e mostram) a alegria em sua nuance mais plena. A alegria que não vê
circunstâncias, nem se importa com a quantidade de direitos fundamentais
violados em uma só viagem, mas que se alegra no momento do picolé para a neta.
Uma alegria e gratidão por coisas que eu nem considerava privilégio, por causa
da facilidade de morar em um centro urbano.
Ah,
Dona Adélia, eles precisavam te ver! Precisavam te ver antes de pensar em
desviar aquele dinheiro para um iate novo em Escarpas. Precisavam ver sua neta
brincando na sala de espera de um hospital cheirando a vômito, antes de
pensarem em gastar o dinheiro da senhora com prostitutas e hotéis luxuosos.
Precisavam conhecer a senhora e o que a senhora passa, antes de serem contra ou
a favor de impeachment, antes de despejarem opiniões políticas no Facebook e
dizerem o que é bom ou ruim para a senhora.
Perdoa-nos,
Dona Adélia. A gente não sabe nada do que diz. A gente sequer sabe o nome da
cidade da senhora, quanto mais a realidade de quem mora lá. Só pra senhora não
se sentir muito ofendida, saiba que a gente chama quem mora na favela de “eles”
e pergunta pra quem mora nela se não é perigoso viver “lá”, como se “eles”
vivessem em outra cidade.
Que
o seu Criador, que vê essas situações todos os dias, continue sustentando a
senhora e todos os iguais a senhora. Que Ele sustente também os médicos, que
fazem mais de 60 atendimentos em um plantão para não deixar ninguém pra trás, e
as enfermeiras, que dobram serviço por falta de efetivo e ainda assim não
perdem a empatia.
A
van de Dona Adélia finalmente chegou. Ela e a menina entram aliviadas e partem
rumo a cidadezinha.
“-
Sabe, vó... Eu gosto muito da cidade, mas eu prefiro ficar com a senhora”.

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